Flor do Meu Jardim
segunda-feira, 23 de março de 2020
Preconceitos
Outros tempos, aqueles em que tudo era mal visto, especialmente, pelos vizinhos, lembro-me perfeitamente da minha mãe dizer sempre que eu fazia algo, fora do habitual – o que irão os vizinhos dizer – não interessava o que ela pensava, o pior era o que os vizinhos diriam.
O rico não casava com o pobre, nem, obviamente, o pobre casava com o rico. As meninas eram muito prendadas, faziam o enxoval em casa, junto das mães. Bordavam lençóis, faziam rendas para toalhas. Picotados em panos para limpar a louça. Rendas para colchas, enfim, um monte de coisas que depois de casarem, raramente usavam.
As idas ao baile ou ao cinema, era sempre acompanhada pela mãe, ou por uma irmã, ou familiar mais velha.
Namorar, só depois de certa idade, e sempre acompanhada.
O sexo, era tabu, ai daquela que fosse apanhada a falar sobre este tema. Era logo apelidada de maluca, estouvada e sei lá que mais.
E sexo antes do casamento?! Nunca, jamais para a mulher, só as putas o faziam, para o homem, era o garanhão, ai daquele que os amigos descobrissem que era viragem, de imediato era apelidado de maricas.
Contrariamente, os rapazes eram uns heróis quando começavam a falar sobre as miúdas do bairro ou colegas de escola. O cigarro, era outro símbolo de ser homem, mesmo que a idade ainda nem chegasse a adolescente.
Conduzir um carro? Ter carta de condução? Só os homens! Impensável ver uma mulher ao volante de um carro.
E tirar um curso superior? Ir para a universidade só os jovens homens, as mulheres, de nada lhes valia um curso, pois irremediavelmente, ficariam em casa a tomar dos filhos e da casa, só as que casassem com um rico, teriam a sorte de ter uma criada, ou mais, para as ajudar nos trabalhos domésticos.
Também os casamentos eram para toda a vida “até que a morte nos separe”, mesmo que isso implicasse uma vida de sofrimento, normalmente a vítima era a mulher, muitas vezes tratada abaixo de cão. O homem saía para a vadiagem, para estar com a ou as amantes. Ela, a mulher, ficava à espera de dias melhores, que nunca chegavam. Mas divórcio, era palavra proibida, nunca, jamais aconteceria.
Foram todos estes preconceitos que impediram a nossa felicidade.
Foi assim durante muitas décadas.
Muitos casamentos permaneceram atá ao fim dos dias de um deles, apenas para não serem falados pela vizinhança e afastados pela família.
Não tiveste coragem de assumir o nosso amor e eu, deixei-te fugir de volta ao sofrimento.
Maria Antonieta Oliveira
23-03-2020
quinta-feira, 12 de março de 2020
Tabus e Mitos
Nascemos noutros tempos, especialmente eu, que sou bem mais velho do que tu. Tempos em que tudo era tabu, tudo era pecado. Todos falavam de tudo sem nada saberem. Todos falavam de todos. Ninguém sabia de nada, nem de si próprio.
O casamento era até que a morte nos separe. As mulheres ficavam em casa a tratar dos filhos, era rara a que trabalhava fora de casa. Teriam que ser submissas e cumpridoras dos seus deveres como esposa.
Unhas pintadas? Calças? Nem pensar, isso era só para determinadas mulheres.
Com os anos as mentalidades mudaram, felizmente, mas nem todas, pois houve ainda algumas que se mantiveram no ontem.
Entre um casal era impensável, a mulher tomar a iniciativa, para tudo o que se relacionasse com sexo. Seria logo apelidada de maluca ou até mesmo de “puta”, o que ofendia e doía muito mais. Por seu turno, os homens, maridos, também não pediam tudo o que lhes dava prazer, à mulher com quem tinham casado, “isso” e mais “aquilo” só com as “meninas” a quem pagavam para os satisfazer.
E assim ao longo dos anos, foram os casamentos de nossos avós, de nossos pais e até mesmo os nossos.
Quando te conheci, já pintavas as unhas, já usavas calças, já trabalhavas fora de casa, mas, não eras independente. Dependias das vontades menos próprias e higiénicas a que te “obrigavam”. O teu marido nesse aspecto até era para a frente, apenas não sabia como sê-lo. Era egoísta, apenas pensava no seu belo prazer sem pensar que tu também terias que sentir prazer idêntico. Exigia de ti e forçava-te a fazer o que não desejavas, a troco de algo que depois te ofertava. Ao fim e ao cabo, tratava-te como se de uma prostituta se tratasse. Sofrias física e psicologicamente. Ira para casa, só de pensar, era muitas vezes um suplicio.
No meu caso, a situação nem de longe nem de perto se equiparava, no entanto, com a minha mulher, também não conseguia ser feliz nem sentir realizado. Talvez daí a minha fase de marialva, na procura de alguém a quem me entregar de coração e alma, sendo e fazendo-a feliz.
Encontrei-te!
Encontrámo-nos!
E fomos felizes!
Maria Antonieta Oliveira
12-03-2020
Lembras-te, Amor?
Lembras-te amor, do nosso primeiro beijo? Os nervos, talvez, os nervos, o desejo, a ansiedade, tudo junto, desorientou-nos e quanto rimos depois. Lembras-te amor?
Parecia mos dois adolescentes inexperientes, e éramos. Éramos dois adolescentes à descoberta um do outro, à descoberta do amor que jamais tínhamos encontrado e sentido.
Como eram bons os nossos beijos desajeitados.
Como eram bons os nossos encontros proibidos. E proibidos porquê? Apenas porque a sociedade assim lhes chama, a sociedade que não sabe o que é o amor verdadeiro. A sociedade que não sente nem sabe sentir a realidade do que o coração ordena. E o coração por vezes, ordena o que a sociedade estabeleceu, como proibido.
Será o amor proibido?
Não! Para mim o amor existe, para ser vivido. O amor é a fonte da vida. O amor é a razão da existência do ser. Amar é sinónimo de felicidade.
Quem ama e é amado, é um ser feliz.
Quantas peripécias nós passámos para ser felizes, neste nosso amor proibido.
Lembras-te amor, quando, como se fizesse parte de um filme, “fugi” através de uns andaimes de obra, para que não descobrissem o nosso amor? Lembras-te, amor?
A felicidade valia por todos estes inconvenientes e aventuras.
E éramos felizes! Muito felizes.
Será que existe destino?
Será que existem caminhos paralelos?
Será que o acaso existe?
Dizem que o acaso acontece, e que nada acontece por acaso, será que nós fazemos parte desse acaso?
Se fazemos parte de um acaso, então porque o acaso nos uniu e de seguida, após anos de felicidade, nos separou?!
Porque não seguimos o mesmo caminho e sim, um caminho paralelo? Caminho esse, que poderíamos ter deixado para trás. Caminho esse, que não era o da felicidade. Porquê?
Porque o destino ou o acaso, nos fez voltar ao outro caminho?
Só Deus sabe o porquê. Também só Deus sabe o quanto nos amámos e o quanto ainda nos amamos.
Ainda me amas, não amas, amor?
Maria Antonieta Oliveira
12-03-2020
Talvez Um Romance
Malandro, sempre fui, tipo macho latino, garanhão, como dizem os nossos irmãos brasileiros, mas aqueles sapatos tipo, masculinos, despertaram a minha atenção. Subi o olhar e ao encontrar o teu, o meu coração carente, bateu mais forte. Tu, eras uma flor linda e airosa. Talvez a tua carência tenha ajudado a que o teu coração também batesse mais acelerado, ao me perguntares se eu gostava deles, dos sapatos, claro. Respondi que sim, que nunca tinha visto uns assim, eram diferentes, mas muito bonitos.
O autocarro parou, desceste e eu fiz o mesmo, não queria perder-te de vista, queria saber qual o caminho que irias seguir. Segui-te, tentando não ser visto, ainda hoje não sei se me viste, se viste, nada fizeste para me afastar, naquele momento, o nosso destino mudou.
Nem tu, nem eu, tínhamos uma vida familiar e sexual, realizada. Havia falta de tudo o que faz um casal feliz. Carentes e sequiosos, olhámo-nos de frente e caminhámos juntos.
Diariamente utilizávamos o mesmo autocarro, o trajecto era comum e o diálogo foi o passo seguinte. Parecia conhecermo-nos há muito, a conversa fluía, os desabafos e os segredos jamais contados, eram entre nós desvendados. Aos poucos a amizade se transformava em paixão, que rapidamente se transformou em amor. Sim, o amor foi o nosso destino.
Contaste-me a tua vida familiar, os teus receios, os teus desejos e sonhos, os teus desgostos e tristezas, as tuas desilusões, as tuas razões que ninguém queria entender. Por meu lado, fiz exactamente o mesmo, contei-te tudo, sobre mim e a minha vida, desejos e ambições, as minhas frustrações, os meus momentos vividos sem viver. Chegámos à conclusão que tínhamos muito em comum, especialmente o que dizia respeito às nossas escolhas de parceiros para a vida.
Algo nos unia. Algo ou alguém, quiçá, alguém superior, te tinha “dito” para comprares aqueles sapatos que foram o nosso princípio. A partir desse dia jamais nos largámos. Passei a ser o teu refúgio e tu, o meu.
Os dias decorriam, eu, olhava-te em silêncio, isso bastava-me para ser feliz. Também tu o eras ao sentir a minha presença sempre assídua. Eu estava sempre lá, na hora, no momento, em que de mim precisasses.
Tentei tirar-te todo o sofrimento. Tentei fazer de ti uma mulher realizada. Tentei que me aceitasses para o futuro, até ao nosso fim. Tentei tudo, mas, algo te fez voltar atrás.
Não acabou o nosso amor, esse será eterno, mas acabou o aconchego dos nossos corpos, mesmo que apenas unidos num abraço.
Ambos mantemos o nosso lar, ambos mantemos as nossas relações incompletas.
Hoje, cada um segue o seu caminho, sem contudo, deixarmos de saber que o outro está lá sempre, para um desabafo, um conselho e também para uma palavra de carinho.
Éramos felizes! Muito felizes!
Maria Antonieta Oliveira
10-03-2020
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