quinta-feira, 12 de março de 2020

Talvez Um Romance

Malandro, sempre fui, tipo macho latino, garanhão, como dizem os nossos irmãos brasileiros, mas aqueles sapatos tipo, masculinos, despertaram a minha atenção. Subi o olhar e ao encontrar o teu, o meu coração carente, bateu mais forte. Tu, eras uma flor linda e airosa. Talvez a tua carência tenha ajudado a que o teu coração também batesse mais acelerado, ao me perguntares se eu gostava deles, dos sapatos, claro. Respondi que sim, que nunca tinha visto uns assim, eram diferentes, mas muito bonitos. O autocarro parou, desceste e eu fiz o mesmo, não queria perder-te de vista, queria saber qual o caminho que irias seguir. Segui-te, tentando não ser visto, ainda hoje não sei se me viste, se viste, nada fizeste para me afastar, naquele momento, o nosso destino mudou. Nem tu, nem eu, tínhamos uma vida familiar e sexual, realizada. Havia falta de tudo o que faz um casal feliz. Carentes e sequiosos, olhámo-nos de frente e caminhámos juntos. Diariamente utilizávamos o mesmo autocarro, o trajecto era comum e o diálogo foi o passo seguinte. Parecia conhecermo-nos há muito, a conversa fluía, os desabafos e os segredos jamais contados, eram entre nós desvendados. Aos poucos a amizade se transformava em paixão, que rapidamente se transformou em amor. Sim, o amor foi o nosso destino. Contaste-me a tua vida familiar, os teus receios, os teus desejos e sonhos, os teus desgostos e tristezas, as tuas desilusões, as tuas razões que ninguém queria entender. Por meu lado, fiz exactamente o mesmo, contei-te tudo, sobre mim e a minha vida, desejos e ambições, as minhas frustrações, os meus momentos vividos sem viver. Chegámos à conclusão que tínhamos muito em comum, especialmente o que dizia respeito às nossas escolhas de parceiros para a vida. Algo nos unia. Algo ou alguém, quiçá, alguém superior, te tinha “dito” para comprares aqueles sapatos que foram o nosso princípio. A partir desse dia jamais nos largámos. Passei a ser o teu refúgio e tu, o meu. Os dias decorriam, eu, olhava-te em silêncio, isso bastava-me para ser feliz. Também tu o eras ao sentir a minha presença sempre assídua. Eu estava sempre lá, na hora, no momento, em que de mim precisasses. Tentei tirar-te todo o sofrimento. Tentei fazer de ti uma mulher realizada. Tentei que me aceitasses para o futuro, até ao nosso fim. Tentei tudo, mas, algo te fez voltar atrás. Não acabou o nosso amor, esse será eterno, mas acabou o aconchego dos nossos corpos, mesmo que apenas unidos num abraço. Ambos mantemos o nosso lar, ambos mantemos as nossas relações incompletas. Hoje, cada um segue o seu caminho, sem contudo, deixarmos de saber que o outro está lá sempre, para um desabafo, um conselho e também para uma palavra de carinho. Éramos felizes! Muito felizes! Maria Antonieta Oliveira 10-03-2020

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